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Os desafios da economia em 2011

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Seg, 01 de Fevereiro de 2010 10:17

*José Álvaro de Lima Cardoso

No que se refere aos desafios macroeconômicos do Brasil o problema da valorização cambial continua sendo o mais preocupante, especialmente se a perspectiva da análise for de longo prazo. Em 2010 o país vai continuar aumentando as importações, o que irá agravar o déficit em transações correntes, mas ainda será coberto pela poupança externa. Mesmo porque o Brasil deve bater recorde neste ano de entrada de investimento direto estrangeiro, estimada em US$ 35 bilhões, superando o valor de 2000, quando ainda estava em curso o processo de privatizações. Mesmo com saldo ainda positivo na balança comercial, o déficit em transações correntes pode chegar a 3% do Produto Interno Bruto (PIB), mas ainda não será um problema neste ano. O risco não está em 2010, e sim na possibilidade de um déficit estrutural em conta corrente, especialmente danoso se a recuperação da economia mundial, como prevêem alguns analistas, tiver o formato em “W”, o que implica em uma nova recessão mundial no médio prazo.

Neste contexto, merece atenção as recentes mudanças no comportamento da taxa de câmbio no Brasil, que vem apresentando um ajuste discreto e gradual. Os dois vetores principais para esta mudança são o rápido agravamento do déficit em transações correntes do balanço de pagamentos e a possibilidade de elevação das taxas de juros nos EUA e na Europa, já a partir do segundo semestre. O déficit externo brasileiro, que ficou em torno de US$ 20 bilhões no ano passado, pode superar os US$ 45 bilhões em 2010, o que irá aumentar a demanda por dólares. Na mesma direção trabalha uma possível elevação dos juros nos países ricos. Em um regime de livre flutuação cambial como o do Brasil, em que o Banco Central intervém no mercado comprando ou ofertando dólares para manter a taxa de câmbio em determinado patamar, a deterioração das contas correntes do balanço de pagamento, somada a outros fatores, leva naturalmente à depreciação da moeda nacional. É fundamental que a depreciação do real, se mantida, ocorra de forma gradual, evitando ao máximo a pressão sobre a inflação. A julgar pela tradição do Comitê de Política Monetária, do Banco Central Brasileiro, se os preços mudarem de trajetória muito rapidamente será inevitável um novo ciclo de elevação dos juros básicos da economia.

Apesar das severas críticas de alguns economistas à política fiscal, nesta área os indicadores, em geral, são positivos no Brasil. Em 2009 o governo realizou um superávit primário de 2,5%, abatendo, como prevê a lei, cerca de 0,5% do PIB dos gastos em investimentos. Para este ano a meta do Ministério da Fazenda é de gerar um superávit primário de 3,3% do PIB, sem a utilização da flexibilidade possibilitada pela Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO). Além disso, a relação entre dívida líquida e PIB, que expandiu um pouco no ano passado, deve recuar para 43% em 2010. Hoje o superávit primário necessário para estabilizar a relação entre dívida líquida e PIB é bastante inferior ao exigido há alguns anos atrás, em função da elevação do PIB e dos níveis de juros reais vigentes, bastante baixos para padrões históricos. A meta de superávit primário para 2010, de 3,3% do PIB pode ser considerada exagerada, especialmente se considerarmos que o governo pode usar, se achar necessário, os recursos do Fundo Soberano, que equivalem a cerca de 0,7% do PIB. Praticamente todos os números afastam, portanto, o risco de insolvência do setor público em 2010.

Conforme foi mencionado, uma desvalorização gradual do real seria o melhor cenário para o câmbio, pois, como têm apontado vários analistas, neste período pós-crise, como a demanda externa está estacionada cresce o peso da vendas de bens primários, especialmente para a China. Se este processo já é complicado no curto prazo, ele pode virar uma tragédia, quando começarem a ingressar no país os dólares decorrentes da extração do petróleo oriundos do Pré-sal. A desvalorização gradual também é importante porque uma desvalorização abrupta, somada a um ritmo acelerado do crescimento, que ameace esgotar rapidamente a capacidade ociosa, pode pressionar os preços. Se isso ocorrer o Banco Central não vai titubear em aumentar os juros, devendo fazê-lo de forma preventiva, antes do fim da capacidade ociosa e da elevação da inflação. Em função do desgaste que significaria aumentar juros proximamente às eleições, esta medida pode vir mais cedo do que se espera.

*Economista e supervisor-técnico do DIEESE em Santa Catarina.
29/01/2010.

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